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Março/1959
A
nossa Escola é no primeiro andar de
uma construção antiga, por baixo, no
piso térreo, uma adega e arrecadação
propriedade do Senhor João Morgado.
Senhor por ser lavrador e dono de
muitas terras, casas e palheiros. Uma
das suas casas velhas, por ser Escola,
é considerada a mais imponente da
aldeia e arredores.
À
entrada a arrecadação, mais ao fundo
a adega com grandes talhas arrumadas
às paredes, ao centro uma enorme mesa
em pedra, tão redonda e de buraco ao
meio, não engana ! - já foi pedra de
moinho.
Na
arrecadação estão vários utensílios
ligados à agricultura, picaretas,
enxadas e enxadões, gadanhas foices e
podões, albardas e várias cordas, há
muita coisa pelo chão.
No
primeiro andar temos a nossa Escola,
de paredes empenadas mas bem caiadas,
com tecto e soalho em tábuas de
pinho, sobre um estrado uma mesa e
cadeira, catorze carteiras duplas,
dois mapas o de Portugal e o Mapa
Mundo, um quadro preto com moldura em
pinho onde na parte inferior repousa
um apagador feito de trapos e um giz
branco, ao fundo da sala, penduradas
na parede duas fotografias - Craveiro
Lopes e Salazar e à entrada, uma tábua
pregada na parede com alguns pregos
cravados que servem de cabide às várias
bolsas feitas de trapos, onde se
guarda uma refeição feita de pão,
queijo, azeitonas ou chouriço.
A
nossa Escola é fria no Inverno, o
soalho tem alguns buracos, falta uma
braseira para nos dar algum calor, nem
todos os alunos têm sapatos nem roupa
para do frio se protegerem. Diz-se
"Deus dá o frio conforme a
roupa" não é verdade há muitas
crianças a tremer, faltam quatro
carteiras, há alunos sentados no chão,
a porta está empenada e as janelas têm
alguns vidros partidos, mesmo assim é
aqui que aprendemos a fazer contas,
ler e escrever.
A
nossa Escola tem dias lindos e cheios
de alegria, são os dias de sol, dias
de primavera, quando há cheiro a
flores, rosmaninho, pampilho, margaça
e alecrim. Há muita alegria quando se
ouvem os pássaros a chilrear ou
quando bem perto de nós, por baixo
das telhas se vêm os ninhos dos
pardais.
Há
dias com medo, não nos sentimos bem,
são os dias de trovoada, chuva e frio
ou se por perto há acampamento de
ciganos, temos medo quando a Guarda
Republicana "invade" a nossa
Escola para a Senhora Professora
assinar o livro de presença. Temos
medo porque cometemos algumas faltas -
a fruta que roubamos, as pedras que
atiramos para o tanque, a seara que
pisamos e outras doidices que fizemos.
A
Guarda olha para todos nós,
comprometidos olhamos para o chão,
mas quando eles saem, sentamo-nos
lentamente com um sorriso de alívio e
alegria.
Mesmo
assim, com tantas dificuldades e
receios gosto da nossa Escola,
enquanto por cá andar não vou
trabalhar, manejando ferramentas
iguais às que por baixo de nós, na
arrecadação estão a aguardar que mãos
de criança as comecem a utilizar.
Mas
aos doze anos, a saber ler e escrever,
sabendo de cór rios e afluente,
linhas férreas e ramais, serras de
Portugal, mares e continentes, estamos
prontos para trabalhar.
Gosto
da nossa Escola, por ser a partir
daqui que aprendemos a ser gente,
gosto da Senhora Professora e de todos
os alunos da primeira à quarta
classe.
Não
gosto da Escola - dizem que para ser
gente, é suficiente saber ler,
escrever, ouvir, calar e obedecer.
Artur
Gueifão |