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O ALISTAMENTO

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O ALISTAMENTO

 
O militar da Armada, ao assentar praça, presta o compromisso solene de se dedicar inteiramente ao serviço da Pátria, prestigiando-a e defendendo-a, dentro de espírito da disciplina militar.
Esta declaração – Juramento de Bandeira – é normalmente repetida no fim do período de recrutamento, quando o militar é considerado praça pronta, durante uma cerimónia denominada “Ratificação do Juramento de Bandeira”. É a seguinte a formula do Juramento de Bandeira.
“Como Português e como militar, juro servir a Pátria e as suas instituições, no respeito da hierarquia e da obediência aos chefes, consagrando-me ao cumprimento do dever militar, mesmo com sacrifício da própria vida”

O carteiro, entregou o envelope azul. Remetente; Ministério da Marinha - Corpo de Marinheiros da Armada - Alfeite.
- Uma carta da Marinha, que sorte – disse o carteiro.
- É da Marinha sim! Há três semanas que estou à espera dela, e não perco tempo, vou já ler o que vem dentro.
Embora eu tivesse quase a certeza do apuramento, foi  necessário ver a confirmação; neste caso, só  a palavra “apto” interessa. Cá está “apto para o serviço militar na Armada”. 
- Fui apurado para a Marinha, pode dizer a toda a gente.
E continuei lendo; “ Deve para o efeito, apresentar-se no Corpo de Marinheiros da Armada, pelas 09.00 horas do próximo dia 19 de Março  de 1965...”.
- Não posso perder tempo, vou já mostrar a carta à minha família e à namorada.
- Que tenhas sorte. Não te esqueças que, estamos em guerra, e segundo me parece, as coisas não irão melhorar. Tropa é tropa, pouco interessa se no exército, força aérea ou marinha; olha que morrer afogado não deve ser coisa boa – disse o carteiro.
- Não tenho medo, eu sei nadar.
No dia seguinte, na aldeia, todos ficaram a saber - o filho do Manuel vai para a Marinha.
Ir para a tropa, obriga a muitas responsabilidades e encargos. Há transportes, cartas e selos de correio, e algumas extravagâncias que irão acontecer. Para vencer tudo isto, é necessário juntar algum dinheiro.
Como hábito, quem vai para a tropa, recebe dos familiares mais chegados, alguns escudos, sendo o melhor dia para o fazer, o domingo, depois da missa. Os primeiros a saber são os tios, depois os padrinhos, e por fim os primos.
O problema é que, os familiares e não só, têm sérias dificuldades, basta saber que, quem vai ao médico tem que pagar, e não há comparticipação nos remédios da farmácia; mesmo assim, este “peditório”, rende uns 100$00, quantia equivalente a quatro dias de trabalho no campo; adicionados às  poupanças, estão disponíveis cerca de 160$00.
O empregado de balcão, habituado a medir metros de fazenda, comprados pelos muitos alfaiates e costureiras da região, passará a ser um militar da Armada – que grande diferença!
Até que enfim! A véspera do dia chegou.
Pelas 22.00 horas do dia 18 de Março, uma quinta feira, o comboio da Beira Baixa, parou na “minha” estação. Dos passageiros entrados, há um a destacar, não tem bilhete, em sua substituição, mostra ao revisor, uma guia de transporte, da responsabilidade do Ministério da Marinha.
- Então vai ser alistado na Marinha? – pergunta o revisor.
- Vou sim. Apresento-me amanhã às nove horas, apanho na Doca da Marinha a VP7 para o Alfeite.
O revisor, segue pelo corredor; olha à direita e à esquerda, sempre na mesma lengalenga - “mostre-me o seu bilhete por favor”. Até que, aponta para mim e comenta – ó mancebo junta-te a estes dois, eles também vão para a marinha,  como a viajem é longa , têm tempo para falar de barcos.
- Barcos não. Senhor revisor,  na marinha só há navios.
- Muito bem. Temos por aqui um marinheiro! - comentou um passageiro.
Pelas 03.00 horas da manhã, o Comboio da Beira Baixa, chega a Santa Apolónia, e com ele muitos jovens portadores de uma grande paixão - a marinha.
Há quem traga alguma coisa que comer. Há quem compre uma sandes no bar da estação. Infelizmente, também há quem nada tenha!
Pelas 08.00 horas, muitos jovens, aguardam a abertura do portão da Doca da Marinha. Quem por ali passa (a correr para o trabalho), vai olhando ou comentando, os mais atrevidos vão  dizendo – Oh escola. Oh escola!
Escolas, sigam para a embarcação. O percurso é todo igual, ao que fizeram na data da vossa inspecção - informa um dos dois militares que nos aguardam ao portão. Um tem uma divisa, o outro tem duas.
Na Base Naval no Alfeite, a VP7, como costume, encosta no mesmo pontão.
Está uma manhã de nevoeiro, mesmo assim, pode ver-se a silhueta de alguns navios - os grandes navios! São F;  M e  P, . Também há um S, sendo este muito diferente. Olhando bem, lá está! Um S160, que navio será?
Porque todos calmamente olhavam, o desembarque da VP7, estava a demorar mais algum tempo, até que, o senhor marinheiro de duas divisas, ordenou.
- Não percam tempo, terão muitas oportunidades para conhecer todos estes navios e outros mais. Sigam rapidamente para o transporte que está na entrada do caís.
Transportados, e depois descarregados, na grande (a mesma) parada, do Corpo de Marinheiros, aguardamos que nos dêem ordens.
- Escolas! Tomem atenção, muita atenção, as informações e ordens que a partir de agora, irão ser dadas pelo senhor marinheiro, ou senhor cabo, não são para repetir. Agora, vão entrar na sala que está à vossa frente para preencherem e assinarem alguns questionários; lembro que, independentemente de terem um curso comercial ou industrial, o quinto ano ou a quarta classe, o vosso posto é igual; são todos segundos grumetes recrutas - esclarece um senhor militar com três divisas amarelas.
- Há dúvidas? -  pergunta o senhor marinheiro.
- Não senhor - respondemos em coro.
Assinados os vários papeis - nem tempo houve para os ler; ouve-se constantemente - rápido, rápido para a parada.
- Escolas, formem  quatro filas e aguardem - ordem do senhor marinheiro.
Uma sala de aulas transformada em barbearia, onde quatro “barbeiros”, de máquina em punho, aguardam a “ordem” para iniciar o corte.
- Podem avançar; cada fila  para o mesmo barbeiro. Quatro filas, quatro barbeiros.
Avançam os primeiros quatro escolas. A máquina manual, abre o primeiro caminho, dividindo a cabeça em duas partes.
Mais umas  passagens  à direita e à esquerda, e já está.
Ninguém escapa. No chão há cabelo aos montões. Por vezes os “barbeiros” vendem ilusões - o corte é igual para todos, mas..., dizem.
De vez em quando o “barbeiro” comenta - há piolho, tem que levar pó.
- Escola, lava  a cabeça com sabão,  duas vezes por dia.
- Sim senhor marinheiro, eu vou lavar a cabeça duas vezes por dia.
Cada vez há mais cabelo no chão, e com ele, haverá certamente algumas centenas de piolhos.
Cortados os cabelos, os “tosquiados”, agora mais leves, e de orelhas ao vento, aguardam para almoçar.
- Escolas, formem em três filas.
Reconhecemos; estamos um pouco desalinhados. O senhor marinheiro não nos chama a atenção, em pensamento nós lhe agradecemos.
- Escolas, sigam para o refeitório, e aguardem as instruções dos senhores rancheiros.   
Rancheiros? Quem serão essas pessoas? Vamos já saber.
Nada do outro mundo, por agora, parecem ser as praças que nos servem a refeição.
Na entrada do refeitório, é entregue a cada escola; um prato e um copo (em alumínio); uma faca, um garfo e uma colher. Numa mesa muito grande, sentam-se pelo menos quinze escolas, onde é servida a refeição completa. Uma posta de bacalhau albardado com arroz de feijão, sopa, pão e uma laranja. Para beber, um copo de vinho tinto.
- Que grande refeição! Se for sempre assim, vou engordar uns bons quilos - comentei com o meu camarada do lado.
- Todos vamos engordar - confirmou.
- Tu por acaso  não és de Panoias no Alentejo?  Perguntei.
- Sim. Sou de Panoias e já nos encontrámos no dia da inspecção.
- Já me estou a lembrar de ti.
Quando a conversa começa animar, o senhor marinheiro, coloca-se a meio refeitório, pede silêncio absoluto e transmite.
- Vão sair ordenadamente do refeitório e formar na parada. Depois, em fila, vão dirigir-se para o paiol de fardamento, onde será entregue o fardamento e outro equipamento.
Formados na parada, vamos seguindo em fila para o paiol. Não entramos, ficamos  a  aguardar em frente a uma grande janela. São três filas e três janelas, em cada janela dois senhores marinheiros.
- Tomem atenção. Vamos começar a distribuir o vosso fardamento, tudo está marcado com o vosso número. Em primeiro lugar, recebem um saco-mochila regulamentar, dentro dele, há fardamento e equipamento não necessário para hoje. Recebem  a farda, e entram na primeira porta à direita. Na sala, estão dois marinheiros a exemplificar detalhadamente como se devem fardar. Havendo dúvidas não hesitem, os senhores marinheiros  estão lá para ajudar.
- Que número de matrícula tens?  Pergunta um dos marinheiros que está na janela.
Dito o número a distribuição vai começar;
Sapatos (39, 40 ou 41?)
Meias
Cuecas
Corpete
Manta de ceda
Alcache
Blusa
Calças
Cinto
Boné com fita.
-Tens nesta folha de papel, a lista do  material que se encontra no saco-mochila, podes confirmar. Na unidade de destino, vai ser entregue; um colchão e cabeceiro com capa/resguardo, um cobertor e uma lona de protecção.
De farda nos braços, e muito apertada ao peito (para nada deixar cair), vamos seguindo em grupos de nove para a sala, e aguardamos as ordens.
- Dispam a roupa civil; vistam as cuecas e calcem as meias; vistam as calças e o corpete; calcem os sapatos; vistam a blusa; coloquem o alcache e a manta de ceda. Todos com boné na cabeça.
- Dúvidas quem tem?
- Senhor marinheiro. Senhor marinheiro, ajude aqui - ouve-se constantemente.
Em pouco mais de uma hora, uma centena de escolas estão fardados.
Formados na parada, o senhor militar de três divisas amarelas informa.
- Uso do trajo civil – As praças da Armada apenas podem fazer uso do trajo civil durante as situações de licença da Junta de Saúde Naval, de licença registada e de licença de 30 dias ou mais; depois da primeira recondução (após quatro anos de serviço), no gozo de 5 dias ou mais, se tiver sido autorizado pelo  Comando da Unidade a que pertence. Mas, mesmo nestes casos, é preciso que não tenham qualquer castigo registado na caderneta e hajam obtido autorização prévia do Comando. Assim sendo, deverão devolver à vossa família a roupa civil.
Também devo informar que, o vosso vencimento, enquanto recrutas, será de 60$00 mensais.
A recruta terá início em 1 de Abril, em Vila Franca de Xira e Vale de Zebro. Na totalidade a incorporação será de 1100 recrutas.
- De seguida vão tirar as fotografias - ordem do senhor marinheiro.
Na parada há muita alegria. Só falta a fotografia.
Uma fotografia para o Bilhete de Identidade  e outra para a Caderneta Militar.
Depois, resta-nos partir.
- Tu para onde vais? - pergunta o  .31.
- Vou para Vila Franca - responde o  .25.
- E tu,  .16?
- Eu fico por aqui (ficam os fuzileiros), mais alguns dias ou semanas. Em Vale de Zebro, estão a acabar de construir algumas casernas e a modificar o refeitório. Até que as obras não estejam concluídas, vamos ficar em tendas de campanha no campo de futebol. 
Partir ou ficar, uns irão para a Escola de Fuzileiros (aguardam no Corpo de Marinheiros); outros transportados em camionetas de caixa aberta, rumam em direcção à Escola de Alunos Marinheiros.
“Em 1 de Abril de 1965, foi incorporado como segundo-grumete (voluntário), nos termos da alínea a) do nº 1 do Artigo 55 do Decreto nº 44884, de 18 de Fevereiro de 1963, fica obrigado a servir quatro anos no activo e, nos termos do    paragrafo 2º do Artigo 3º do Decreto Lei nº 44883, de 18 de Fevereiro de 1963, em  condições normais, a servir até aos 45 anos na Reserva da Armada (O.D.S.P.- 2ª Serie nº 65 de Abril de 1965”
Em Julho, na Escola de Alunos Marinheiros, mais de um milhar de recrutas, de todas as especialidades, incluindo os fuzileiros, irão fazer a Ratificação do Juramento de Bandeira     
“Como Português e como militar, juro servir a Pátria e as suas instituições, no respeito da hierarquia e da obediência aos chefes, consagrando-me ao cumprimento do dever militar, mesmo com sacrifício da própria vida”

A. Gueifão

A seguir os primeiros dias da recruta    

 

 
     
 

Comentários

+1 Re: O ALISTAMENTOvirgilio miranda 04-03-2011 20:13 #1
Amigo Gueifão
Espero desta ter mais sorte e conseguir colocar aqui um comentário.
Foi com alguma emoção que li, e reli a sua mensagem, da nossa incorporação na Armada, do que recordo, foi a inspecção no Alfeite, e a tal temporada acampado nas tendas que são aqui referidas no campo de futebol, mas a duração desse período, já lá não vou.
Quanto á data da incorporação tenho na memória o dia 17 de Março, mas talvez esteja errado e tenha sido a 18 como aqui é recordado.
O único documento que tenho, refere a data de 1 de Abril, mas não é verdade, tenho a certeza que foi em Março.
Força para continuar a narrativa.
Um abraço
Virgílio Miranda
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