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Recrutas na Armada 22 de Março de 1965

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AS PRIMEIRAS HORAS NA ARMADA/22 DE MARÇO 1965


“Na Armada não se pode fazer fortuna. As compensações materiais dos trabalhos e sacrifícios que são exigidos serão sempre muito pequenas. Mas certamente cometerá um erro quem avaliar só por isso a carreira naval. Não se deve esquecer que ela permitirá levar uma vida honesta e saudável, rodeada de boa camaradagem, com possibilidade de viajar e conhecer o Mundo e aprender muita coisa que valorizará o marinheiro sob todos os aspectos. Terá também garantia a alimentação, o alojamento, o uniforme e a assistência médica”.

Admissão das praças da Armada é realizada segundo dois sistemas:
Por recrutamento e por voluntariado.
Os mancebos admitidos  são incorporados como segundos grumetes recrutas ou voluntários.
Seguidamente à incorporação os segundos grumetes frequentam a instrução de recruta (IR), durante 14 semanas, na Escola de Alunos Marinheiros ou na Escola de Fuzileiros, destinada a dar-lhes a preparação militar básica.
Depois de concluída a instrução de recruta, os segundos grumetes recrutas e voluntários, logo que possível, frequentam os cursos de instrução técnica elementar (ITE) destinada a fornecer-lhe os conhecimentos técnicos indispensáveis ao ingresso nas seguintes classes:
Artilheiros
Fogueiros-motoristas
Radiotelegrafistas
Radaristas
Electricistas
Torpedeiros-detectores
Manobra
Sinaleiros
Abastecimento
Fuzileiros
Levam baixa do serviço militar da Armada e revertem à vida civil, sujeitos à Lei do Recrutamento Militar, os voluntários que:
Manifestem incapacidade para o serviço da Armada, comprovada pela Junta de Saúde Naval.
Obtenham classificação inferior a “Bom”, 60%, na ITE.
Hoje, dia 22 de Março de 1965, vindos do Alfeite, chegamos à  Escola de Alunos Marinheiros em Vila Franca de Xira. 
À nossa espera estão dois marinheiros.
Por indicação, formamos na parada, ao mesmo tempo que vão descarregando da camioneta as nossas “bagagens”

Depois de formados,  somos contados; são setenta e cinco.
- Escolas, vão receber tudo o que foi entregue no Alfeite e também o “chouriço” - informa o senhor marinheiro.
Chouriço! Nós já jantamos - comentou alguém. 
- O “chouriço” é a designação dada  à cama das praças da Armada. Para onde forem ela sempre vos acompanhará - disse.
Um colchão, um travesseiro e um cobertor estão enrolados ao comprido.
Tudo está protegido por uma lona que atada por vários “cordéis” (designados por  aranha), forma um rolo com cerca de dois metros de comprimento e quarenta centímetros de diâmetro.
- Escolas, carreguem o que vos foi distribuído e sigam para a caserna nº 3.
De “chouriço”  às costas e de sacos na mão, acompanhamos o senhor marinheiro.
Chegados ao local, num primeiro andar, o senhor marinheiro vai indicando o número de “cama” que nos foi atribuído (um em baixo outro em cima). A caserna nº 3, destinasse  à 3ª Companhia.
- Colocar o “chouriço” sobre a rede do beliche, desfazer o rolo e preparar a cama. Todos  têm um armário, único sitio destinado ao vosso equipamento. Roupa civil; na primeira saída, deverão leva-la para a vossa casa ou entrega-la no paiol de fardamento. Conforme já foi esclarecido, nos próximos anos não é permitido o seu uso - disse o senhor marinheiro.
Agora vamos ouvir um senhor militar de quatro  divisas amarelas.
- Escolas, hoje é a vossa primeira noite na Marinha. A noite é de silêncio, e todos têm de o fazer.  Na caserna existe o serviço de plantão, todos lhe devem obedecer.
Para indicar a noite vão ouvir dois toques de clarim. Pelas vinte e uma horas e trinta minutos será o toque de recolher. Pelas vinte e duas horas vão ouvir o toque de silêncio, quer isto dizer, silêncio absoluto, o não cumprimento dará lugar a castigo.
- Dúvidas quem tem? Não havendo dúvidas melhor. Amanhã vão conhecer o Comandante vossa Companhia.
A meio da caserna, em frente aos armários, o senhor marinheiro esclarece - este  senhor militar é primeiro sargento, e está como adjunto ao oficial de serviço. Devo informar que é muito exigente no cumprimento da disciplina,  é provável que entre na caserna esta noite para verificar se estão a respeitar o que foi dito.
- São agora vinte horas, têm dez minutos para formar na parada. Depois seguem  para o refeitório onde será distribuído um reforço de  alimentação;  leite com cacau e pão com manteiga ou marmelada. Para quem veio da província, habituado ao café de cevada este reforço foi muito bom.  
São vinte e uma horas e trinta minutos; ouve-se o toque de clarim, segundo foi dito pelo senhor primeiro sargento, é o recolher.
Regressamos à caserna e aguardamos.
- Escolas, são vinte e duas horas, o clarim toca a silencio. Todos para a cama (para muitos é a melhor cama da sua vida).  Amanhã pelas oito horas é a alvorada. Às oito e meia têm de estar na parada. Devem apresentar-se barbeados e fardados com fato de macaco e botas, não esquecer todos com boné na cabeça – ordem do senhor marinheiro.

Até ao dia 1 de Abril (inicio da recruta), estarão na Escola dez companhias, num total  de setecentos a oitocentos grumetes recrutados e voluntários. Os voluntários serão a grande maioria. 
Na Escola de Fuzileiros o processo é idêntico. As casernas estão situadas na parte norte, depois da pista de lodo, perto do refeitório novo. Há casernas com beliches de três camas, sendo a pior situação a cama do meio.
A.Gueifão
A seguir os primeiros dias da recruta