http://arturgueifao.com/components/com_gk3_photoslide/thumbs_big/402672A1.jpglink
http://arturgueifao.com/components/com_gk3_photoslide/thumbs_big/737587A2.jpglink
http://arturgueifao.com/components/com_gk3_photoslide/thumbs_big/531830A4.jpglink
http://arturgueifao.com/components/com_gk3_photoslide/thumbs_big/304936A3.jpglink
Black & White : Entrada / Crónicas / Recruta na Armada 1965
A+ R A-

Recruta na Armada 1965

Enviar por E-mail Versão para impressão

 RECRUTA  NA ARMADA 1965
“A Ordem Unida é muito importante para a Armada, não só porque estabelece uma Ordem indispensável para a vida interna e para os deslocamentos, como também contribui poderosamente para conservar e manter o espírito de subordinação, o sentimento da coesão e o hábito  da disciplina, elementos estes que constituem a base na vida militar.
É também em ordem unida que as forças militares se apresentam em público, missão que as forças de Marinha têm muitas vezes de desempenhar, mesmo em países estrangeiros. Sobre elas pesa nesses momentos a responsabilidade de bem representar o País.
Por isso, todo o pessoal da Armada, deve procurar aperfeiçoar-se e executar sempre rigorosamente todos os movimentos da ordem unida, para que a Marinha possa continuar a manter nesse capítulo as honrosas tradições que possui”.
Em cerimónias oficiais, as forças de Marinha Portuguesa, desfilam sempre em primeiro lugar.
A instrução de recruta IR, em boa parte, contribui para esta boa prestação. 

Por todo o mês de Março, a Escola de Alunos Marinheiros em Vila Franca de Xira,  recebe os recrutas que irão formar as dez companhias.
Na Escola de Fuzileiros em Vale do Zebro, os recrutas vão chegando de acordo com o programa das obras efectuadas nas novas casernas. Irão formar quatro ou cinco companhias.  
A instrução de recrutas é simultânea, inicia-se a 1 de Abril e termina a 16 de Julho (juramento de bandeira em Vila Franca de Xira).
Na EAM, os recrutas da terceira companhia, passam a primeira noite na caserna a 22 de Março, uma segunda feira. O plantão (responsável pela ordem na caserna) pouco anotou. Os recrutas estão cansados; mesmo assim, pelas quatro horas da madrugada, o 25, ao descer da cama (dorme num 1º andar), não acertou com o degrau e caiu. De imediato, o zeloso plantão aproximou-se, levou o dedo indicador ao nariz em sinal de silêncio e disse - se fizeres barulho chamo o cabo-de-dia. 
Meio torcido, o 25 encaminha-se para a zona destinada à higiene; uma forte dor de barriga atormenta-o desde o deitar.   
Por baixo dos cobertores, os acordados, vão espreitando o acontecimento mas não comentam. Pouco tempo depois tudo volta ao silêncio.
Pelas oito horas, ouve-se o toque do clarim a anunciar a alvorada.
O plantão, instala-se a meio da caserna e manda.
- Levantar, têm meia hora para formar na parada.
Mal ou bem lavados, barbeados ou não, vamos correndo apressadamente em direcção à parada.
Estão à nossa espera três militares; um tem quatro divisas amarelas; dois têm divisas vermelhas.
O militar da divisa vermelha, vem ao nosso encontro e vai dando  indicações.
- Dirijam-se para junto da capela e aguardem.
Nesse local o militar de duas divisas ordena:
- Vão formar por alturas, os mais altos para a minha direita. Rápido, não há tempo a perder. Vocês ai, precisam de fita métrica? Em caso de dúvida o mais antigo (numero mais baixo) forma à direita. 
Todos queremos ser altos, no entanto, a média ronda um metro e sessenta e cinco centímetros.
Depois de alguns encontrões, lá nos vamos apercebendo onde temos de ficar. Formados a três, e por alturas, o senhor militar, para ser melhor ouvido, vai gritando.
- Braço direito estendido na horizontal à altura do ombro. Mantenham esse afastamento.
Estamos atabalhoados, isto são coisas novas. A certeza é que, pela primeira vez, na nossa vida militar, estamos formados.
O senhor militar de duas divisas, dá um passo em frente e informa. 
- A partir de hoje, em formatura, esses são os  vossos lugares. Na formatura não se fala e não se executam outros movimentos, a não ser, os ordenados pelos instrutores ou pelo Comandante da Companhia.   
O senhor militar de quatro divisas amarelas, pela primeira vez vai usar da palavra.
- Escolas, eu sou o primeiro sargento Carvalho, comandante da Companhia. Tenho como adjuntos, monitores/instrutores, o senhor cabo (duas divisas vermelhas), e o senhor marinheiro (uma divisa vermelha). Sempre que tenham dúvidas ou necessitem de algum apoio deverão fazê-lo por via hierarquia, ou seja; ao senhor marinheiro, ou ao senhor cabo; estes se necessário, apresentarão o assunto ao Comandante da Companhia. Se o assunto não for da minha competência, serei eu a apresenta-lo ao Comandante de Instrução. O senhor cabo e o senhor marinheiro, até ao dia 1 de Abril, inicio da IR, irão acompanhar por perto os vossos serviços.  
O senhor sargento Carvalho afasta-se e nós ficamos.
O senhor cabo, toma o lugar do senhor sargento e informa:
- A partir de agora, esqueçam os vossos nomes, serão sempre identificados e chamados pelo vosso número. No dia 1 de Abril, a alvorada passará a ser às sete horas e trinta minutos e, a formatura para o pequeno almoço às oito horas. Na melhor das hipóteses, a primeira saída da Escola, será daqui por três ou quatro semanas.
O senhor marinheiro, toma agora, o lugar do senhor cabo e informa:
- Hoje, excepcionalmente, esta apresentação ter sido  demorada, estarão aqui para formar às nove horas e trinta minutos. Têm quarenta e cinco minutos para o pequeno almoço, é tempo mais que suficiente.
- Vão seguir alinhados para o refeitório. Primeiro, marcha a primeira e segunda fila, depois a terceira e quarta e por fim a quinta e sexta fila. No refeitório, vão ocupar as mesas indicadas pelos rancheiros. Entendido?
E nós seguimos alinhados em direcção à porta grande.
As mesas são de mármore branco, e sobre elas estão grandes cafeteiras, com cacau e leite. Há muitas sandes com fiambre, manteiga e marmelada. É uma fartura! Para quem veio da província  isto é um espanto.
Se o pequeno almoço nos impressionou, que diremos do almoço ou do jantar. Na cozinha do refeitório, os faxinas carregam sacos de arroz e de batatas. Despejam sobre grandes estrados muitas couves e cenouras. Temperados por cozinheiros há carne e peixe em grandes tabuleiros. Há pães às centenas. Há vinho e muita fruta. Para quem veio da província  isto é um mundo diferente. Há abundância e qualidade; bifes, postas de peixe, entrecosto, fígado, frango e carne de vaca para guisar ou cozer.
Na província, raramente ou nunca se alimentam assim. Muitos jovens recrutas, comem pela primeira vez um bife ou peixe do mar. Na província, o melhor que se conhece, são os enchidos, o chispe e o toucinho, tudo guardado na salgadeira. Comem o barbo, a saboga ou fataça; é o peixe do rio. Do mar, comem a sardinha. Uma sardinha seja grande ou pequena, é dividida  por três pessoas. Na província é assim!
Entretanto, os primeiros dias vão passando. As formaturas vão tendo outro requinte. Os afastamentos  e os lugares de cada um, já não são dúvida. Há escalas de serviço  para faxinas à cozinha e rancheiros no refeitório. Há serviços de limpeza às casernas e parada. Por incrível que pareça há escala para deitar abaixo os ninhos de andorinha.
E, a partir de 1 de Abril a nossa IR vai começar.         
A instrução ministrada aos instruendos, tem mais incidência sobre: INFANTARIA  (ordem unida, educação e preparação física, serviço de guarnição e combate); SERVIÇO NAVAL (disciplina militar, postos nas forças armadas, honras e continências, deveres militares, justiça militar, recompensas e medalhas, uniformes, classes da armada, vida a bordo,…); MARINHARIA (o navio, tipos de navios, organização de um navio de guerra, governo do navio, comunicações, serviço de vigia, postos de combate e limitação de avarias, …); HIGIENE PESSOAL (higiene e primeiros socorros, salvamento no mar ...);  ARMAMENTO (armamento dos navios de guerra, espingardas, metralhadoras, pistolas, granadas de mão, guerra química e biológica, …).

A seguir: Continuação da recruta, primeiras saídas e  juramento de bandeira

A. Gueifão