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Recruta na Armada 4/1965

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Recruta na Armada, 4/1965

A marinharia é a arte do marinheiro; é o conjunto de conhecimentos que o caracterizam como homem do mar e que o habilitam a servir a bordo, tenha ou não qualquer especialidade técnica.
Desde os tempos mais recuados o Homem tem sentido a necessidade de se deslocar sobre a superfície dos mares, rios e lagos, com os mais variados fins: transporte de pessoas e carga, pesca, etc.  Foi esta necessidade que o obrigou a inventar os navios e que o levou a aperfeiçoar a arte de os construir e conduzir sobra as aguas, conduzindo-os a salvo aos destinos desejados. Com o decorrer  dos séculos o marinheiro foi aprendendo a conhecer melhor o mar e os navios, ou, por outras palavras,  a Marinharia ou Arte Naval foi-se desenvolvendo e aperfeiçoando.
A invenção da máquina a vapor, o emprego do ferro na construção naval e, mais tarde, o aperfeiçoamento da electricidade e da telegrafia sem fios e o desenvolvimento dos armamentos transformaram o navio numa complicada máquina, cuja condução exige técnica de especialidades  muito diferentes uma das outras. Mas seja ele um cozinheiro ou um electricista, um fogueiro ou um artilheiro, o homem que vive e serve a bordo tem de ser marinheiro; o seu à-vontade  no mar tem de ser tão completo que o seu trabalho saia tão bem feito como se fosse executado em terra firme.
Sempre que a manobra ou a segurança do navio o exijam o marinheiro moderno tem de ser tão hábil a dar um nó num cabo, a remar numa embarcação, a tapar um rombo ou a dominar um incêndio  como o é na sua peça de artilharia se for artilheiro, na cabina da rádio se for telegrafista, nas máquinas ser for fogueiro, ou em qualquer outra que seja a sua especialidade técnica.
A linguagem marítima e os hábitos da vida naval, enriquecidos por uma tradição tão antiga  como a própria nacionalidade, são os mesmos para toda a gente a bordo  dum navio, são os mesmos de navio para navio, quer dizer, são uniformes em toda a Marinha.
O conhecimento da Marinharia por todo o pessoal da Armada é, portanto, utilíssimo para a  unidade  e vida da corporação e muito contribui para a distinguir como serviço especial que é de facto”.
Pelo que está descrito, todos os recrutas da Armada, têm pela frente um longo caminho. Aprender e saber; depois é aplicar os conhecimentos adquiridos.
Estamos no mês de Abril de 1965. Portugal está em três frentes de guerra; Angola, Moçambique e Guiné. A disciplina militar é enorme, as fardas e as armas são conversa de todos os dias.
- Escolas; só podem sair da Escola, quando conhecerem as fardas militares e os postos militares; caso contrário, até os porteiros dos hotéis, vão ter direito a continência  - esclarece o senhor cabo monitor.
A  Instrução de Recruta é igual para todos, não há protegidos nem protectores.
A alvorada, o recolher e o silêncio são cumpridos a rigor.
Três semanas após o inicio da recruta, as formaturas e os alinhamentos são regulares. Um paço em frente, um paço atrás; um paço à direita ou à esquerda é uma perfeição.
Passadas quatro semanas.
- Escolas; hoje para variar, vão receber uma arma, a Mauser – informa o senhor marinheiro monitor.
É uma data para não esquecer. Pela primeira vez, temos uma arma na mão.
Em fila, à porta do paiol, recebemos a espingarda e o sabre-baioneta.
A Mauser, é uma arma (manual) de repetição, (modelo 937)
Calibre: 7.92 mm
Peso: 3,950 kgs
Comprimento: 1,110 mt
Alcance de precisão: 400 mt
Alcance útil: 2.000 mt
Alcance máximo com ângulo de 30º: 4.500 mt
Velocidade inicial 755 mt/seg.
 - Até à parada transportem a arma desta forma – exemplifica o senhor marinheiro.
A partir de agora a ordem unida/infantaria tem outro sabor.
Numa só semana aprendemos o; “à-vontade”, “descansar”, “sentido”, “ombro armas”, “apresentar armas”, “funeral armas” e, “ensarilhar armas”.
Algumas semanas depois.
- Escolas, por ordem superior, a partir de hoje a ordem unida/infantaria é feita com uma nova arma; a arma de eleição para a vossa vida militar; com ela, será feito o vosso juramento de bandeira – informa o senhor cabo monitor.
No paiol é entregue uma “bela” arma, a G3; com ela a instrução tem outro requinte.
O senhor cabo continua:
- Em formaturas e honras militares,  a posição e o  movimento das armas Mauser e G3 são muito diferentes.
Entretanto, numa aula de formação, sobre a G3, o senhor marinheiro monitor esclarece:
- A arma G3 (modelo 1961), é uma  espingarda automática
Calibre: 7,62 mm
Peso com guarda mão de madeira: 3,950 kgs
Peso com guarda mão metálico e bipé:  4,250 kgs
Comprimento total: 1,020 mt
Ritmo de fogo: 500 a 600 tiros por minuto
Velocidade inicial: 700 a 800 mts/seg
Capacidade do carregador: 20 munições.
Pode disparar em rajada ou tiro a tiro.
Mais ainda.
- Todas as sentinelas (quando armados), cumprimentam qualquer superior que passe pela sua frente, mesmo que seja a uma distância superior a 5 passos, executando os seguintes movimentos:
Altas entidades, Oficiais-Generais e Oficiais Superiores (na Armada; Capitão-Tenente a Almirante) ou ( no Exército e Força Aérea; Major a Marechal); “apresentar armas”.
Oficiais Subalternos ou Aspirantes (na Armada; Aspirante a Primeiro-Tenente) ou (no Exército e Força Aérea); Aspirante a Capitão); “ombro armas”.
Sargentos; da Armada, Exército e Força Aérea, “sentido”.
Quando um civil se dirige a um sentinela esta toma a posição de “sentido”.
À passagem de forças militares mantém-se  em “ombro armas”, “apresentando armas” à bandeira nacional ou aos superiores que a essas honras tenham direito.
À passagem de um funeral executa o movimento de “em funeral armas”
E continua: - Como estão ouvindo é necessário conhecer os postos militares da Armada, Exército e Força Aérea, para que, o movimento de arma (em continência), seja devidamente feito. Não há desculpa para quem desconheça este dever militar.
Entretanto. já conhecemos os postos; divisas, galões estreitos, galões largos, galões muito largos e também, as estrelas doiradas ou prateadas. A continência “a pala” já a sabemos fazer.
Assim sendo, e passadas três semanas de IR, estamos preparados para a primeira saída; quatro noites e quatro dias fora da unidade militar (sexta, sábado, domingo e segunda).
- Por ser domingo de Páscoa no próximo fim-de-semana, excepcionalmente o Senhor Comandante de Instrução, autorizou, a todos os recrutas a primeira saída. A vossa actual fraca integração militar, e o desconhecimento de muitos deveres militares, nomeadamente o RDM, pode contribuir para várias irregularidades.
Não podem criar conflitos nem desacatos, têm de respeitar tudo e todos. Saem  fardados, andam fardados e apresentam-se fardados. Como já conhecem os postos,  não esqueçam que, o cumprimento militar é a continência. Dúvidas não podem haver.
Faz-se silêncio. Temos agora, a grande oportunidade de apresentar-mo-nos fardados à nossa  família e amigos. Quando regressar-mos à aldeia, vão olhar para nós de forma diferente.
Entretanto, a IR, está a levar à exaustão alguns recrutas; a preparação física, as marchas  no exterior da Escola, a natação e o remo vão desgastando os mais francos e   “fazendo mossa nos mais fortes”.
Todas as manhãs, em frente ao gabinete do “sargento-de-dia”, há uma formatura para a enfermaria. São muitos os que  comparecem; recorrem ao médico ou enfermeiro, no sentido de obterem algum medicamento que os torne mais  resistentes. Alguns dos  doentes ficam internados na enfermaria. Outros há que, da enfermaria vão parar ao Hospital da Marinha. Cerca de um milhar de recrutas estão sujeitos a doenças ou acidentes.
O 34, natural de Maceira, hoje teve um grande azar, na preparação física, ao saltar um obstáculo, caiu mal e partiu uma vértebra; o seu estado parece ser grave. É levado para o Hospital da Marinha em Lisboa. Por agora, não sabemos se volta à IR, ou se termina, desta forma inglória a sua passagem pela Marinha.
O Senhor Comandante de Companhia informa que:
- Quando um recruta sofre um acidente ou tem doença grave, é internado no Hospital. Se parece não ter recuperação, é submetido a uma Junta Médica (JSN), onde será considerado, “apto” ou “inapto” para o serviço militar na Armada. Se for considerado inapto volta para a vida civil.? Ainda não sabemos  o que acontecerá ao  34.
Com o decorrer das semanas, nós os recrutas, vamos  ganhando mais consciência das nossas responsabilidades. Por perto, estão sempre os bons conselhos do nosso Comandante de Companhia.
Na sala de aulas nº 1, o Senhor Sargento Carvalho fala de doenças venéreas.
- Vou fazer algumas recomendações, destinadas a todos os recrutas; principalmente os que tenham menos experiência da vida. Quase sempre, são os recrutas voluntários naturais da província.
A falta de alguns cuidados, considerados elementares, podem ter consequências muito graves.
Está a aproximar-se a primeira saída da unidade. Sei que, do outro lado da estrada, ou no canavial aqui ao lado, vão encontrar, estão mesmo à vossa espera, várias “mulheres da vida”. Estas mulheres, vão dizer que são naturais da província, raramente dizem ser de Lisboa, Porto ou Faro,  elas querem ganhar  alguma simpatia. Devo alertar, para o perigo, que elas podem representar para a vossa saúde. É necessário ter muito cuidado, muito cuidado mesmo. Se apanharem uma doença venérea e não forem tratados a tempo,  está em causa muita coisa na vossa vida. Para reduzir a possibilidade de contágio, com doença venérea, vai ser entregue um pequeno frasco, contendo um líquido anti-séptico, para usarem após qualquer relação sexual. A forma como o devem fazer, está descrito no vosso bloco de notas.
Lembro que, o portador de doença venérea pode ser punido pelo RDM.
Terminada esta recomendação, já estamos a imaginar o que iremos ver e ouvir quando passar-mos  o portão para o lado de lá!
O “Porto”, tem um irmão na Escola de Armas Submarinas, no ITE de torpedeiro-detector, e por essa razão, já está familiarizado com estas coisas.
Depois destas recomendações “O Porto” vai dizendo.
- Elas estão mesmo à nossa espera, até sabem quando saímos e o dia em que recebemos. O meu irmão já me disse que pedem de 3 a 6 escudos, tudo depende da idade delas. Alguns recrutas, por não tomarem as precauções necessárias depois do sexo,  não tarda que estejam na formatura para a enfermaria.
- Mas todas têm a tal doença?   pergunta o 60.
- Todas não. Em trinta, umas dez provavelmente têm – confirma o Porto.
- Tantas! Comenta o 62.
Entretanto, na caserna vamos criando vários grupos. Entre estes, destacam-se os  Transmontanos e Minhotos; Beirões e Ribatejanos;  os Alentejanos e Algarvios. Os recrutas de  Lisboa são amigos de toda a gente.
Ora vejam lá!
Está na moda ter uma madrinha de guerra, e como não podia deixar de ser, os nossos amigos de Lisboa encarregam-se disso. Hoje, ao fim da tarde, o Alfama apresentou-nos grandes novidades. Abriu o armário, e repuxa por duas folhas de jornal,  uma é do Diário Popular a outra do Diário de Noticias (anúncios grátis).
Temos aqui madrinhas para muita gente. Ora vejam. Vejam não. Oiçam porque eu vou ler. 
No Diário Popular, oferecem-se 7 raparigas para madrinhas de guerra. Troca de correspondência são 14;  portuguesas são 10, brasileiras 4. Troca de postais ilustrados temos aqui 11. Só raparigas.
No Diário de Noticias, madrinhas são 8; troca de correspondência 16, sendo 13  portuguesas e 3 brasileiras. Troca de selos e postais ilustrados são 14 raparigas - e continua – dou as direcções a 1 escudo para as madrinhas e troca de correspondência. Cinco tostões para a troca de postais e selos. Os interessados não podem demorar  há muita procura.
O preço é convidativo, uma carta com selo custa 15 tostões. Ter uma madrinha vai custar 25 tostões, ou sejam dois escudos e cinquenta centavos . A oferta esgota-se em pouco tempo. Há pessoal da 4ª Companhia que também  entra na compra (a caserna fica aqui ao lado).
O negócio está a “dar” só que, o 25 e o 31, que até são da província, têm uma nova e melhor ideia, sendo mais barata e segura. Fazer  troca de nomes, com raparigas nossas conhecidas, incluindo primas e irmãs. No entanto é condição obrigatória terem idade dos 16 e 20 anos, e não estarem comprometidas. Isto foi uma bomba, em pouco tempo há uma lista disponível e suficiente para todos os interessados.
O 33, mais conhecido por,  pinturas, embora seja natural da Beira Baixa, parece ser um recruta com alguma cultura. Escreve bem ...,  e cartas de amor é com ele.
Apresenta varias cartas “tipo”, para  madrinhas e troca de correspondência. Cada carta é vendida a 5 tostões, ou seja, cinquenta centavos. Apresenta três modelos  para  escolher  um.
Uma das cartas começa assim.
“ Menina _ ,li com muita atenção o anúncio publicado dia _ no  Jornal...,
onde  se oferecia  madrinha de guerra. O seu acto é de coragem e respeito.
Assim sendo, é com muita sinceridade, que eu venho ao encontro do seu pedido. Estou certo que, irá encontrar em mim, um militar de coragem, respeito e digno de   uma madrinha, que o acompanhará por alguns anos... Se não aceitar o meu pedido, ficarei um pouco triste. O seu nome  despertou em mim grande simpatia...
Fico em grande expectativa até receber a sua resposta. Escrevendo “sim”, está de uma forma simples, mas muito nobre a tornar um militar feliz.
Obrigado pela sua atenção
Outra
“Menina _ , peço-lhe desculpa pelo meu atrevimento. Escrever a uma jovem que eu não conheço é uma situação um pouco embaraçosa. O seu nome foi-me concedido pelo meu camarada de armas __ , que, sabendo eu ser, um militar de respeito e sem compromissos me facultou essa honra... O meu pedido é simples mas honroso. Venho  pedir-lhe que façamos troca de correspondência. Este gesto simples pode contribuir para maior felicidade na vida de um marinheiro...
Fico em grande expectativa  e emoção a aguardar um “sim”
Atenciosamente
____
PS.
Pode pedir informações minhas, ao meu camarada militar.  
Há também quem escreva os envelopes com  letra, gótica francesa ou inglesa. Há ainda os artistas que, com a ajuda de um corta-unhas,  transformam os envelopes num autentico rendilhado.
Tudo se vende...
A grande maioria das cartas a enviar, irá ter como resposta um “sim”; outras “daqui por algum tempo” e serão poucas com um “não”.
Com esta “novidade”, os provincianos aldeões e os citadinos, estão agora mais perto e unidos.
- Isto está a animar a malta – dizem alguns.
Entretanto estamos no dia de sair.
Quinta feira ao final da tarde, apresenta-mo-nos na formatura preparados para a revista. Estamos barbeados e engraxados. Bem fardados, prontos a transpor o portão grande. O saco-mochila é a nossa bagagem, dentro dele, o fato civil, proibido de usar
O senhor Oficial-de-dia, faz agora algumas recomendações.
- A vossa condição de militar, obriga-os a não perturbar a ordem, e não transgredir qualquer preceito em vigor no lugar em que se encontrem, não maltratar os habitantes nem os ofender nos seus direitos, crenças e interesses.
Ao cruzarem-se com um superior, têm de o cumprimentar. A continência é o  cumprimento militar.
O portão grande, abre-se lentamente; nós os recrutas vamos transpondo esta barreira enorme,  designada por “Porta de Armas”
Centenas de recrutas dirigem-se para a Estação dos Caminhos de Ferro. Dezenas de recrutas - com o tal frasco no bolso - vão na direcção do olival ou do canavial. Por não terem família ou dinheiro, há recrutas que não saem, ficam na Unidade Militar.
A seguir a recruta continua.
AG