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Black & White : Entrada / Crónicas / Recrutas da Armada e a primeira saída
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Recrutas da Armada e a primeira saída

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Um dos textos que nos leram em Abril de  1965.

-Verdades que não deves esquecer-

“O Homem não é só o corpo que nós vemos e sentimos; é também a alma, o espírito que o anima, que lhe permite viver. E assim como o corpo tem a faculdade de se movimentar, de falar, de ouvir, de ver etc., assim o espírito tem a faculdade de pensar e de querer. Da mesma forma que o corpo, para usar das suas faculdades, precisa de ser ensinado e educado, também o espírito necessita de adestrar o pensamento e a vontade. O homem completo é aquele que procura desenvolver harmoniosamente as faculdades do corpo e do espírito”.

Poucos tiveram a noção deste texto. Para quem veio da província, há palavras que nunca foram, ouvidas ou lidas.

“...O portão grande, abre-se lentamente; nós os recrutas vamos transpondo esta barreira enorme,  designada por “Porta de Armas”

Centenas de recrutas dirigem-se para a estação dos caminhos-de-ferro. Dezenas de recrutas - com o (tal) frasco no bolso - vão na direcção do olival ou do canavial.

Por não terem família ou dinheiro, há recrutas que não saem, ficam na Unidade Militar”.

A primeira saída.

Nas estações dos caminhos-de-ferro em Vila Franca e Barreiro, os recrutas amontoam-se, tendo por perto e companhia  o saco-mochila.

Alguns rumam a sul, outros ao centro e norte.

Ao final da tarde, e passadas algumas horas de viagem, o comboio aproxima-se da (minha) estação.

Apita duas ou três vezes e faz a frenagem. Ouve-se  o contacto, ferro com ferro. Há alguma fumaça e faiscas no ar. O comboio chia  e pára lentamente.

Um pequeno solavanco e as portas abrem-se. Os passageiros acompanhados por alguma bagagem pisam com grande satisfação o cais da estação.

Há muitos civis e alguns militares. Tropa do Exército, da Força Aérea e da Armada.

Na (minha) estação, militares da Armada são dois; um marinheiro telegrafista e um grumete recruta.

Os empregados ferroviários hoje são três; o chefe de estação, o agulheiro e o carregador / descarregador. Cada na sua função, vão dando conta do recado.

Cais abaixo e cais acima,  a aguadeira da estação grita.

- Água e bilha. Água e bilha. Água da Fonte Santa, bilha de Nisa.

Carregados com o saco-mochila, os militares dirigem-se para as suas  aldeias.

O comboio apita mais uma vez e segue o seu destino. Vai galgando serras ou vencendo campinas. Apita e pára, e torna a apitar, assim acontece até ao fim da linha.   Vão descendo outros tropas, são militares de farda verde  (exército), azul força aérea e branca da armada.

Carregados com o saco-mochila, os militares seguem apressadamente para a (sua) cidade, vila ou aldeia e, não havendo camioneta de carreira, o  percurso é feito a pé.

O marinheiro telegrafista e o grumete recruta fazem-se ao caminho.

As estradas não são estradas, são caminhos de terra batida. Não há alcatrão, há sim, cascalho, terra solta e pó. Mas, por vezes, vem uma golfada de  ar, trazendo com ela, um cheirinho a esteva e rosmaninho.

Antes de chegar à aldeia faz-se uma paragem na taberna da Vila.

Na porta da tasca, um edital da Câmara Municipal, anuncia, para 23 de Maio de 1965, a inauguração do fontanário numa aldeia da Freguesia. “...o Senhor Presidente da Câmara  Municipal convida todos os munícipes a associarem-se e a comparecerem...”

Encostados ao balcão da taberna, estão muitos homens e algumas mulheres. Escutam   com muita atenção as noticias vindas de Angola. O jornalista Ferreira da Costa, faz a informação diária dos Serviços Militares. Terminado o comunicado a telefonia é desligada, os homens ficam, as mulheres vão para casa.

Pela rua principal da Vila, vão caminhando calmamente os dois militares da Armada. Aprumados e disciplinados, conforme as indicações recebidas, na formatura antes da saída.

Numa das ruas da Vila, ouve-se alguém chamar baixinho.

- Ó Rosa anda cá ver. Anda cá depressa - estão aqui a passar dois tropas da marinha.

- Dois?

- Sim. São dois.

Boné na horizontal, alcache e manta de ceda bem direitos e aconchegados, os dois militares da Armada, seguem agora para a aldeia que os viu nascer. São aldeias diferentes, só iguais no caminho de terra batida e no cheiro a esteva e rosmaninho.

Nos (povos), aldeias da freguesia, não há electricidade. Não há luz nem electrodomésticos. Há somente as telefonias a pilhas.

Para iluminarem as modestas casas, usam-se as candeias a azeite, os candeeiros a petróleo (para quem pode), modernos petromaxes com camisa incandescente.

Em Aljezur, Panoias, Belver, Tondela, Aguiar da Beira e por outras localidades de sul a norte do País, os recrutas da Armada estão  presentes, bem fardados e disciplinados.

Chegados à (nossa) aldeia, falamos da farda, da instrução e das armas.

Em casa, e já pela noite dentro, sentamo-nos à mesa para cear. Sobre a mesa é colocada uma  panela de barro, alguns pratos, colheres e garfos. Para comer temos  uma sopa de couve com feijão com rodelas de farinheira e chouriço. Em cima da mesa  também há algum pão e azeitonas.

- Na marinha, o jantar seria arroz de grelos  com peixe frito, ou batata cozida com bife de cebolada.

Óh! Que diferença.

- O comer na marinha é melhor! - desabafa a mãe.

- Sim! Muito  melhor - confirmo.

- Na marinha há um grande refeitório com mesas em alumínio. Há pratos, copos, facas, garfos e colheres. Na cozinha há muita comida. Os recrutas que nunca comeram com faca e garfo, há um oficial ou um sargento para os ensinar.

- E são muitos?

- Mais do que possa  pensar.

- Na caserna há um local destinado para cada coisa. Um espaço para dormir - a camarata. Nos balneários há grandes espelhos e lavatórios em mármore branco onde  se lava a cara e mãos. Para tomar banho há chuveiros com água fria e quente. Há também um espaço próprio para fazer as necessidades. Na caserna há luz eléctrica. Uma luz moderna e muito branca, dizem que - é florescente. Há uma sala onde vemos televisão e ouvimos rádio. Há vários jogos e muita animação - é a sala do marinheiro.

- Aqui em casa, temos o que se pode ter. Na aldeia é tudo igual. Todos somos pobres.

- Eu sei disso mãe.

- Vamos dormir. Amanhã é preciso levantar cedo. Há que regar as terras, com as águas de partilha - diz o  pai.

- Vamos dormir - confirma a mãe.

No corredor, em frente aos quartos, uma candeia fica acesa por algum tempo. A candeia ilumina tão pouco. Mal dá para ver!

Na aldeia, pela manhã canta o galo e zurra o burro.

Na (escola) marinha, o marinheiro clarim, toca a alvorada.

Mas que diferença.

Hoje sábado, veste-se roupa civil. Não há oficiais nem sargentos para o testemunhar.

Não há “o livro” para registar esta falta grave.

O recruta da Armada, dá uma volta pela aldeia, caminha rua abaixo, rua acima. Passa pela fonte e encontra um grupo de raparigas a aprontar os pormenores para a baile de amanhã, domingo de Páscoa.

A Irene, a Teresa e a Olívia, por serem as mais novas, fazem parte doutro grupo, com elas está, uma jovem brasileira.

- Olá. Você é o marinheiro?

- Sim. Sou eu.

Logo me lembro do Alfama, o recruta de Lisboa. O Alfama e os seus  anúncios no Jornal. “Jovens brasileiras e portuguesas para  troca de correspondência”.

- Ora diga, a menina é brasileira?

- Sim. Sou brasileira. Os meus pais são portugueses.

- Muito bem. Muito bem.

O diálogo continuou.

- Eu estou a aguardar resposta a  um pedido para troca de correspondência. A carta foi enviada para uma jovem brasileira de Paraty, não muito longe do Rio de Janeiro. Já consultei o mapa do Brasil e vi - fica no sul.

- O Rio de Janeiro é uma das cidades mais bonitas do  Mundo - disse a jovem.

Entre as raparigas, uma delas não gosta desta animada conversa.

Compreendo este  embaraço, e  assim sendo, mudo de assunto.

- Ora contem, o programa para amanhã?

- Queres saber?

- Sim. Quero.

- Os rapazes contrataram um acordeonista. Desta vez, foi (falado), contratado o Álvaro Justo com a sua estrondosa aparelhagem - disse a Maria do Céu.

- O Álvaro Justo é o melhor - rematou a Maria da Rosa.

Da contratação fazem parte; o acordeonista, o gira-discos e dois altifalantes.

Um motor a petróleo com dínamo acoplado, e uma instalação eléctrica com 15 lâmpadas.

Toda a energia eléctrica é fornecida por esta poderosa  e ruidosa máquina.

As lâmpadas eléctricas, são penduradas em postes de eucalipto e distribuídas de forma a iluminarem todo o palco, as paredes e os barrotes do telhado. Esta noite, neste local, não há  candeias a azeite nem  candeeiros a petróleo.

Domingo de pascoa, ao fim da tarde, os altifalantes começam a anunciar.

- Atenção, muita atenção, um, dois, três, experiências, experiências.

Pouco tempo depois.

- Atenção, muita atenção, em breve o baile vai começar.

- Senhores e senhoras, rapazes e raparigas, vou tocar de seguida duas músicas bem conhecidas de vocês; “hó minha terra onde eu nasci” e “só nós dois é que sabemos” - anuncia o acordeonista.

Batem-se palmas.

Pela noite dentro e até manhã, ouvem-se lindas canções de amor e são feitos vários pedidos ao acordeonista.

- Senhor acordeonista toque aí - “naquela janela virada pró mar” - e que seja dedicada a um marinheiro que está entre nós - pede uma rapariga.

- Sim. Vou satisfazer o seu  pedido.

E assim começa; “ marinheiro do mar alto, olha as vagas uma a uma, preparando-te um assalto entre montes de alta espuma, por mais que elas bailem numa louca orgia, não trazem desejos de me torturar, como aquela doida que eu deixei um dia, naquela janela virada pró mar...”

Batem-se palmas, muitas palmas.

Ao recruta da Armada, esta noite falta-lhe a sua linda namorada.

Pela manhã, quando o galo cantou, tudo terminou.

O acordeonista arruma as suas “músicas” na furgoneta.  As raparigas e os rapazes vão para casa e descansar. Vai começar o dia de trabalho, com muitas terras para regar, hortaliças e legumes para plantar e semear. Nas serras e nos montes há muita rezina para recolher nos pinhais.

Em Aljezur, Panoias,  Belver, Tondela, Aguiar da Beira e por outras localidades de sul a norte do País, os recrutas da Armada estão por lá e sempre com grande postura militar.

Os dias da dispensa estão a terminar. A farda está lavada e bem passada. O regresso à Escola/Unidade está próximo. A recruta vai continuar.

- Mãe, amanhã vou à minha vida  - muita coisa boa me está a esperar.

- Sim. Tem de ser - na aldeia nada te prende, nem  te deixa saudades.

- Mãe, não é bem assim como diz - gosto dos bailes e das raparigas e de tomar banho na ribeira.

- E gostas de trabalhar no campo?

- Gosto... se não  houver outras coisas para fazer.

- Então vai. Muita coisa tens de aprender.

- Vou sim. Mas não sei quando vou voltar.

Em Aljezur, Panoias, Belver, Tondela, Aguiar da Beira e por outras localidades de sul a norte do País, os recrutas da Armada preparam-se para regressar.

O portão grande “A Porta de Armas”, irá abrir-se para  os receber.

Os recrutas vão entrando na Escola às golfadas. O saco-mochila, que transportou para a aldeia a roupa civil, é agora “o porta comida”, com  pão, chouriço, queijo e alguma fruta.

Na caserna arrumam-se  as “coisas” trazidas da terra.

Pelas sete e meia da manhã, o clarim toca a alvorada.

A Instrução de Recruta vai continuar.

AG

 

 

Comentários

0 Re: Recrutas da Armada e a primeira saídaJosé Alexandre 04-01-2012 22:31 #1
Boa noite
Vim visitar o seu site a convite do amigo Luís Alexandre. Também fui marinheiro, entrei para a Marinha em Janeiro de 1972 e vejo que temos em comum o gosto pela construção de miniaturas. Vou voltar mais vezes para conhecer melhor o site, pois pelo que já vi, parece muito interessante.
Os meus cumprimentos.
José Alexandre
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