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O lobo amarelo na Freguesia de Belver , 1962

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O Lobo Amarelo

A freguesia de Belver, do concelho de Gavião, pode bem chamar-se “terra dos três distritos”; geograficamente está implantada em território da Beira Baixa, no entanto, pertence ao distrito de Portalegre, província do Alto Alentejo.

A freguesia, tem o Alentejo a sul, a Beira Baixa a norte e o Ribatejo a oeste. Está “protegida” pelas serras do Bando, Vale do Grou e Zimbreira.

É rico em fauna e flora, sendo as espécies (animais), mais vulgares, as raposas, gatos-bravos, ginetos, papalvos, doninhas, fuinhas, texugos, saca-rabos e lobos.

No inicio dos anos 60, sistematicamente, nos meses de Dezembro a Março do s.p., foi fustigada por uma alcateia de lobos, que deixou a sua marca.

A alcateia não é numerosa, talvez quatro ou cinco animais; duas fêmeas e doí machos, tendo como líder o conhecido e tenebroso “o lobo amarelo”.

O primeiro gado a ser atacado, tem sempre a marca deste animal; extremamente violento, mata por prazer, é sempre o primeiro a atacar e o último a abandonar.

Ano 1962.

Estamos em pleno Inverno; os dias são pequenos, frios e ventosos. Tem chovido sem parar, já lá vão, mais de três semanas. A serra do Bando, tem estado coberta, por uma espessa camada de nevoeiro. Nesta altura do ano há pouco trabalho; a apanha da azeitona e o corte do mato (estevas, rosmaninho, urzes e carqueja), são a única actividade dos povos.

Os rebanhos de cabras e ovelhas vão alimentar-se ao campo mas, por precaução, não se afastam da aldeia.

Os campos estão cheios de boa erva e mato viçoso.

Os rebanhos estão bem compostos, têm muitas crias.

O frio e a chuva fazem com que os lobos e raposas se aproximem do povoado. Os pastores estão mais atentos e mesmo assim, os lobos esfomeados arriscam nas incursões; não estivessem os cães por perto, as feras atacariam o gado nos currais.

Mas, houve um certo dia, em que os lobos, pertencentes a alcateia do ”lobo amarelo” atacaram um rebanho sem dó nem piedade. Pelo menos seriam quatro adultos e duas crias (dois (lobitos). Numa corrida desenfreada e certeira, atiram-se ao gado. Um borrego bem lustroso, é agarrado pelo pescoço e levado para o mato. O tenebroso “lobo amarelo” mostra-se à-vontade, e escolhe a presa pelo seu tamanho, o que é pequeno não lhe interessa. Ataca e agarra um pobre animal, atira-o ao chão e rasga-lhe o ventre; de seguida dois lobos arrastam a presa para o mato.

Na aldeia ouve-se o pastor a gritar; “há lobo... há lobo”.

Os gritos vêem do Vale do Gineto.

As gentes da aldeia, correm para o campo gritando; “ há lobo ...fogo... fogo”.

Há quem carregue as espingardas e dispare, “pum … pum”.

Também eu, por curiosidade corro para Vale do Gineto e aproximo-me do rebanho.

Que espanto. Ó meu Deus! O lobo amarelo está bem perto de mim. Vejo-lhe a língua os dentes. Não sei o que pode acontecer, só me resta esperar. Enquanto espero pelo desfecho, alguém dispara um tiro. “Pum”.

O lobo amarelo, dá dois ou três saltos e infiltra-se no mato.

O lobo esteve tão perto de mim; tem cor estranha, o povo tem razão.

Perto do pequeno ribeiro, o pastor meio atrapalhado chama pelo farrusco.

- Farrusco. Farrusco.

- Maldito cão onde se meteu?

Assustado e a tremer, o Farrusco só pára na aldeia junto ao curral. O sacana do cão não deixa de se esganiçar.

Passado este pesadelo, contam-se as cabeças de gado e fazem-se as contas.

Duas ovelhas e dois borregos são dados como desaparecidos.

Passadas algumas semanas, nas aldeias há uma grande surpresa. Um pastor, vindo de uma aldeia dos arrabaldes da serra do Bando, carrega sobre um burro o defunto “lobo amarelo”. Como se isto não chegasse, dentro das bolsas de um alforges, mostra três lobitos bem vivinhos.

- Ó povo, venham ver “o lobo amarelo” e os lobitos seus filhos.

- Ó povo, contribuam com alguma coisa.

- Eu quase ia morrendo para os apanhar.

Pelas aldeias da freguesia, o valente pastor, foi narrando a sua valentia.

 

A.Gueifão/1962