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Recruta na Armada, Abril 1965. Juramento de Bandeira

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Porque tantos marinheiros fardados!

Uso de trajo civil/Regulamento

As praças da Armada apenas podem fazer uso do trajo civil durante as situações de licença da Junta de Saúde Naval, de licença registada e de licença de de 30 dias ou mais; de pois da primeira recondução, no gozo de 5 dias ou mais se tiver sido autorizado pelo Comando da Unidade a que pertence. Mas, mesmo assim, nestes casos, é preciso que não tenham qualquer castigo registado na caderneta e hajam obtido autorização prévia do Comando”.

 

A saída a Lisboa em fim de semana (15 e 16 de Maio de 1965), está a ser motivo de conversa; todos os dias há novas revelações. Algumas destas têm continuidade por toda a semana.

O cinquenta e o vinte, relatam em pormenor as aventuras de sábado e domingo.

- Vocês sabem lá... cheguei à bela conclusão que, no Intendente, não estão só as “velharias”, num outro bar, a meio da rua, deparamos com miúdas da nossa idade... - e assim, o cinquenta vai abrindo o jogo.

- Eu passei por lá e de especial nada vi! - comenta o vinte, um pouco angustiado.

- Claro que não. Tu nem entraste no bar!...

- Acredita que é verdade, são novas e atrevidas - continua o cinquenta.

- Ora conta. Estou a gostar! - insiste o vinte.

- Nada mais posso dizer... jurei.

- Um marinheiro nunca jura, se o faz, está em obediência por excesso.

- Lamento. Nada mais posso dizer!

- Eu sei. Eu sei! - adianta o Alfama.

- A algarvia, também conhecida como “a rainha do mar”, pediu-te namoro, ou então disse ter um irmão marinheiro. Não acredites, ela e todas as outras, para criarem simpatia, dizem ter irmãos na Armada.

Desencantado, o cinquenta baixa a cabeça e desabafa - foi isso mesmo! Segredou-me ao ouvido, ter dois irmãos na Marinha; um na fragata Pêro Escobar, outro na Escola de Fuzileiros.. Que grande mentira, fui enganado.

O trinta e três e a sua trupe, descrevem ao pormenor, os acontecimentos decorridos na Casa do Alentejo.

- Pela primeira vez, encontramos na cidade, muitas pessoas assim como nós. O vestir, o falar e a forma de agir assemelham-se aos costumes das nossas aldeias. Dançamos, tal e qual, como na nossa terra!

- Queres com isso dizer que; Maneles, Tónhos, Marias e Luísas eram aos montões... um encontro de provincianos em Lisboa - comenta o Almada.

- Foi mais ou menos isso - esclarece o trinta e três.

O Caldas ouve e ri. O Guimarães não pára de perguntar - quando vamos ver o Benfica?

Do grupo, composto por uma vintena de escolas, só dois ou três, reúnem as condições necessárias, para acompanharem os restantes ao campo do Benfica. São eles; o Alfama, o Almada e o Caldas.

- Eu nunca vi futebol em campo com relva - desabafa o Panoias.

- Eu também não. Eu também não - ouve-se em coro.

- Brevemente iremos fazer procissão a Benfica - promete o Caldas.

Alguns dos que ficaram “por cá”, descrevem como foi a sua passagem pelo canavial e o seu primeiro encontro sexual; a ida ao cinema e o filme que viram; o bailarico na colectividade e uma namorada.

Espantoso! Primeiro encontro sexual no canavial... que comentários.

Fabuloso! O Continente desaparecido... um filme temeroso.

Sedutor! Uma nova paixão... a confissão de amor.

Por perto, está o grupo dos chamados “intelectuais”, entre outros; o Pimenta, o Encarnação, o Morais e o Saldanha. Os “intelectuais” são diferentes, lêem livros e revistas e não entram nestas parvoíces.

Recorde-se que, são incorporados na Armada, como grumetes recrutados ou voluntários, indivíduos/mancebos, com as habilitações; quarta-classe, cursos industriais, comerciais ou liceais. De inicio, todos os recrutas, vão ter a mesma instrução e o mesmo posto (grumete). As promoções futuras são feitas pela classificação no ITE, 1º grau, 2º grau e curso de sargentos. Serão marinheiros, cabos e sargentos; com muita sorte, e num futuro distante, poderão alguns (poucos), serem promovidos a oficiais.

Um dos “intelectuais” esclarece; - com mais dois anos de escolaridade (sétimo ano do liceu) um amigo meu, o Dinis, entrou para a Escola Naval e está no curso de oficiais. Eu tenho o quinto ano do liceu, e ando aqui de alcache às costas e panamá na cabeça! No mínimo, tenho de aguentar quatro anos. Paciência na Marinha é assim.

A formação é muito variada e complexa; os navios e a vida no mar são a grande animação. Vamos conhecendo (na teoria), as potencialidades dos couraçados, contratorpedeiros, porta-aviões, cruzadores, fragatas, corvetas, patrulhas, draga e caça minas, lanchas de desembarque, submarinos e navios auxiliares.

Todos somos jovens dos dezassete aos vinte anos, talvez por isto, as armas despertam grande curiosidade.

As peças de artilharia dos navios, as minas e os torpedos; as armas ligeiras como a Mauser, Dreyse, MG42, G3 e a FBP; as pistolas Walther de 9 mm e 7,65 mm; as granadas defensivas, ofensivas e de fumo.

O senhor Sargento, na aula de armamento vai alertando.

- As armas matam. Matam quem as usa e enfrenta. As armas matam inocentes, criminosos e traidores. As armas, só podem ser utilizadas, em tempo de guerra ou nos conflitos militares. Portugal está em guerra na Guiné, Angola e Moçambique. As armas, podem ser usadas em legitima defesa... um militar, está sempre em legitima defesa - a defesa da Pátria.

Começamos assim saber; por aqui também se morre?!

Morre sim!

Quem patrulha os rios e a costa marítima no Continente e no Ultramar?

São as forças de Marinha.

Quem faz a escolta nos rios e no mar?

São as forças de Marinha.

Quem...

São as forças de Marinha.

A recruta está a chegar ao fim e o Juramento de Bandeira está por perto.

Para o Juramento de Bandeira de conjunto, são destacados do Vale do Zebro (E.F), para Vila Franca de Xira (E.A.M.) os recrutas fuzileiros. Como não há casernas disponíveis, armam as tendas no Campo de Futebol e por ali ficam vários dias.

Os preparativos para o Juramento de Bandeira são constantes; parada abaixo, parada acima, marchar, marchar. Somos mais de um milhar. O refeitório passa a ser um “mar de gente”. Após o Juramento de Bandeira os fuzileiros, regressam à sua Escola no Vale do Zebro.

E no dia 16 de Julho de 1965, pelas 10.00 horas da manhã, na parada do Grupo nº1 de Escolas da Armada em Vila franca de Xira,1200 grumetes, rectificam o Juramento de Bandeira.

Na instalação sonora ouve-se.

Firme, sentido, ombro armas, apresentar armas.

Poucos minutos depois; o Hino Nacional

E numa só voz.

Como Português e como militar, juro servir a Pátria e as suas instituições, no respeito da hierarquia e da obediência aos chefes, consagrando-me ao cumprimento do dever militar, mesmo com sacrifício da própria vida. Juro”

A recruta terminou.

No Grupo nº 1 de Escolas da Armada - Escola de Mecânicos, vão ficar os, fogueiros-motoristas, radaristas, electricistas, sinaleiros, torpedeiros-detectores e abastecimentos; para o Grupo nº 2 de Escolas da Armada no Alfeite, vão seguir os radiotelegrafistas e artilheiros; os manobras apresentam-se no NRP Santo André.

Infelizmente há quem não Jure Bandeira ou...

Vejamos...

... apresentei-me no Alfeite a 17-3-1965, aí estive algum tempo enquanto ultimavam novas casernas na Escola de Fuzileiros, para onde fui de seguida. Fiz a recruta sem problemas, até que, dois dias antes do Juramento de Bandeira em Vila Franca de Xira, para onde fomos destacados, com a finalidade de jurar bandeira em conjunto com os recrutas do GN1, apanhei o primeiro de uma série de castigos ... este primeiro deveu-se a ter ido a Alenquer (a minha terra), sem autorização. Como nesses dias, não se fazia chamada na formatura, pensei que, não davam pela minha falta, mas há sempre um chibo em cada esquina, e lá vão os primeiros cinco dias de detenção; A seguir o I.T.E., que também fiz, penso que com aproveitamento... acabei corrido para vida civil.

 

... Quando tinha uns nove ou dez anos, tive a malvada febre reumática (tratamento nada), esta doença deixa sempre grandes marcas; cardíacas ou renais. Comecei por ter falta de ar e dor no peito. Três dias antes do Juramento de Bandeira fico com baixa na enfermaria. No dia do J.B., tive alta, especificamente para a cerimonia oficial....”

 

... O esforço exigido foi severo, não esqueço a preparação física, o rémo e as marchas fora da Escola, tudo foi dramático, só quero esquecer. Uma semana antes do Juramento de Bandeira, sou internado no Hospital da Marinha, com problemas pulmonares. Não jurei bandeira na Cerimónia Oficial, que pena a minha... foi tudo diferente...”

 

... Ao saltar um obstáculo, caí mal e parti uma vértebra, fui hospitalizado no H.M., melhoras nada. Passados três meses, fui submetido a uma Junta Médica, tendo sido considerado inapto para a vida militar na Armada. Não jurei bandeira e desta forma tão infeliz, terminou a minha passagem pela Marinha...”

 

... A minha admissão como recrutado na Marinha, foi uma desilusão. Nunca gostei de obrigações e muito menos em obedecer cegamente aos superiores, e muito menos, quando estes invocam o nome da Pátria. Até na cama tenho de ser obediente - estar calado. Há formaturas para tudo; comer, receber correio, instrução, limpezas, formar, formar. Obedecer, obedecer e calar… estive três semanas ausente, depois decido em nome da minha liberdade, desertar... vou para França, não sei quando poderei voltar...”

 

... Aqui estou na Armada, no serviço militar. Estou bem e sinto-me feliz. Amigos são às centenas, Há respeito e entreajuda. Aqui posso aprender uma profissão, que irá certamente facilitar arranjar emprego na vida civil, isto se, não pretender continuar...”

Quase todos os recrutas pensam assim.

Continuação: As especialidades

A. Gueifão

Comentários

0 Re: Recruta na Armada, Abril 1965. Juramento de Bandeiravirgilio miranda 04-07-2012 18:46 #1
Caro Gueifão
A minha história na nossa Armada vai um pouco além do I.T.E. de facto permaneci nos Fuzileiros mais de 400 dias,
Um abraço
Virgilio
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