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A festa na Aldeia

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A festa na Aldeia

Esta crónica, tem por fim, recordar uma das festas na aldeia. Decorreu em 1968, década difícil para todos os portugueses. Povo sacrificado pela guerra e pela emigração. A festa, ajudava em parte a esquecer tanta desgraça. Na altura, com 20 anos e militar, senti estas coisas boas e más da vida. Não é fácil esquecer. Será que virão tempos iguais?

Este Julho tem de tudo! - diz o povo. As arcas enchem-se de milho, trigo e centeio. Nas hortas, abundam as melancias e melões. Onde há água não faltam alfaces, tomates e pepinos... O povo tem comida e parece ser feliz. A festa da aldeia, trás alegria a toda a gente e faz esquecer, por algum tempo, todos os males.

O António, o Manuel e o Joaquim; o José, o Diamantino e o Francisco; o Zacarias, o Martinho, e todos os Outros, são homens solidários e amigos; adoram a terra onde nasceram.

A Maria, a Fernanda e a Alice; a Teresa, a Conceição e a Olinda; a Jacinta, a Adelina, e todas as Outras, são mulheres cheias de virtudes.

A Festa

- Oh! este ano sim! Temos um ano farto, há de tudo! A festa da aldeia vai beneficiar desta fartura!”

Os filhos da terra, regressam de França por alguns dias. Estão por lá emigrados, mas não esquecidos. De Lisboa e arredores vêm os “deslocados”, operários na Carris, Caminhos de Ferro e de outros serviços. Os militares, os que por cá estão, não vão perder os dias da festa. 

Desde o início do mês, e já lá vão uns quinze dias, homens e mulheres; rapazes e raparigas, não falam noutra coisa - a nossa festa, a festa da aldeia.

Os mais religiosos, suplicam aos Santos da sua devoção. Pedem a São João que ninguém adoeça ou morra. Pedem a São Pedro e Santo António que por perto, e até ao fim do mês, não aconteça desgraça alguma.

Há rezas a Santa Barbara, para que afaste as trovoadas da região “para onde não haja nem sol, nem beira, nem flor do rosmaninho... para onde não haja pão nem vinho, nem folhinha de oliveira”.

O povo pede com muita devoção, e quando assim é, acreditam; todos os Santos vão ajudar.

Ao fim do dia, quando se encontram vão comentando.

-Tudo irá correr bem, nós merecemos a melhor festa! Acreditamos vivamente; não haverá desgraça alguma.

- Este ano será a melhor em toda a freguesia.

- A melhor não digo. Na aldeia não temos electricidade nem água canalizada.

- Temos de nos remediar.

- Assim sendo, não podemos emparelhar com a festa da Vila.

- Lá isso é verdade”.

Os quinze dias que antecedem a festa são de grande trabalho.

Na aldeia todos se desdobram em muitos afazeres.

A preparação do recinto, o palco e a ornamentação das ruas é trabalho para os mais novos. As comidas e bebidas são da responsabilidade dos experientes (comerciais), com algum jeito e saber para estas coisas.

A música é uma escolha na tradição local. Dois conjuntos típicos, um rancho folclórico e uma aparelhagem musical com acordeonista.

O cartaz.

Na tipografia das Matas, onde há grande saber e muita imaginação, foram mandados fazer, trinta cartazes anunciando a deslumbrante festa da aldeia. O cartaz comporta quatro fotografias, estampadas em zincogravura; a Santa, os conjuntos musicais, a aparelhagem sonora e acordeonista.

Grandiosa festa na aldeia; 26, 27 e 28 de Julho de 1968

Há “dizeres” anunciando; a alvorada de morteiros e o peditório porta a porta acompanhado de acordeonista; missa e procissão com os Santos, andores e fogaças; quermesse, corrida de burros e jogo da malha; comidas e bebidas; fogo preso, iluminação eléctrica e o baile até madrugada.

Na última linha do cartaz faz-se o aviso “a comissão não se responsabiliza por qualquer acidente”.

Os cartazes serão afixados na sede do Concelho, na Vila, e por todas as aldeias próximas, de preferência nas tabernas e mercearias; afixados na garagem da camionagem “Claras” e também na estação de comboios.

A comissão faz convite a toda a gente da aldeia; colaborem - queremos a melhor festa.

Na reunião, com todos os elementos da comissão, ficou esclarecido:

- Que seja feito, um estrado em madeira, maior que uma eira, onde ao mesmo tempo, possam bailar trinta pares.

- Deverá ser feito um palco, onde os conjuntos e o acordeonista possam actuar. Será coberto com rama de eucalipto, colchas e mantas de trapos.

- O rancho onde vai actuar? - pergunta o Zé Pedro.

- Actua no estrado! Sendo maior que a uma eira será o suficiente - esclarece o Raul.

- Não esqueçam, o rancho da Casa do Povo de Almeirim, vai actuar com trinta participantes - comenta o Rocha.

- Trinta? Isso é muita gente!

- Muita gente e muito movimento. É dos melhores ranchos do Ribatejo! - comenta o Agostinho.

- Lá isso é verdade! Mas, é bom não esquecer que, nos vai custar, perto dos oitocentos escudos - esclarece o Martinho”.

E a comissão continua:

- Que seja feita uma vedação à volta do palco, onde só as raparigas entrem sem pagar.

- Preços? Pergunta o Diamantino.

- Os bilhetes para a baile terão dois preços; uma série de três modas, quinze tostões. Uma livre entrada, quinze escudos por noite. Os militares só pagam metade..

- Menos não pode ser! O conjunto “Tulipa Negra”, para a noite de sábado vai limpar mil escudos - lembra o Agostinho.

- Nós já sabemos... é dinheiro a mais! - desabafa o Grácio”.

E, a comissão vai ordenando:

- Que sejam caiados todos os muros e varridas as ruas principais. Façam um tapete em verdura por onde irá passar a procissão.

- Sabemos não ser fácil mas, a partir de quinta feira, vamos evitar a passagem dos animais pela rua principal. Nem burros, machos ou mulas e muito menos as cabras e ovelhas - esclarece o Rocha, elemento comissão.

- As mulheres, devem ornamentar a capela, com flores e verdura.

- As raparigas, terão de fazer os arranjos em papel, destinados aos mastros e arcos colocados nas ruas.

- Compete aos rapazes, descerem à ribeira, cortarem e trazerem muito junco e murta, o suficiente para o tapete verde, na principal rua da aldeia.

- É preciso muita rama de eucalipto, para os arcos e cobertura da quermesse.

- Se trabalhar-mos com dedicação tudo irá bater certo. Nada de encostar o corpo ás paredes ou pensar que; o que não se faz em dia de Santa Luzia faz-se noutro dia”.

E assim, a festa vai ganhando forma e vida.

As tabernas são o único ponto de encontro das gentes vindas da vila e das aldeias próximas: Quando bebem mais um copo, não controlam as conversas e ofendem-se mutuamente. Por vezes há vontade em distribuir uns murros aos mais teimosos.

- Vem este tipo, do outro lado do Tejo, onde não há festa como a nossa, e aqui, parece querer ensinar o que toda a gente sabe de cór e salteado.

- Ou te calas ou temos o caldo entornado”.

Faz-se silêncio por alguns segundos, mas desta vez, tudo acaba bem.

Na manhã de sexta feira, a comissão reúne com o Sr. Januáro. Por ser um dos mais letrados da aldeia e funcionário do Estado, toda a gente aceita as suas sugestões.

Quer saber se tudo está em ordem, a saber:

Mesas, cadeiras e grelhadores; vinhos, cervejas, sumos, gasosas e águas; carvão, frangos, febras e sardinhas...

Pergunta, e toma notas, depois:

- Tudo parece estar certo. Hoje, sexta feira a meio da tarde, vamos arrancar com a nossa festa”.

Ás três horas em ponto, dez morteiradas dão o primeiro sinal - a festa vai começar.

Há bebidas com fartura: vinho branco e tinto; cerveja, sumos e águas com e sem gás. Há comida em grande quantidade: frangos, chouriços e sardinhas; tremoços, azeitonas e ervilhanas. Nada falta! Há de tudo!

Há musica até madrugada.

No sábado, há quermesse com venda e rifas.

Disputa-se a corrida de burros e o jogo da bilha.

Há baile até madrugada.

E no estrado, onde se faz a dança, vamos ouvindo:

- A menina dança?

- Danço.

- Não danço.

- Tenho namorado”.

Mas também se ouve:

- Dá cá licença.

- Já! Nem uma volta eu dei.

- Espera! A moda está a terminar.

- Não dou! É a minha namorada”.

E assim, pela noite dentro, alguns pares se vão revezando.

O domingo é o grande dia.

Pela manhã faz-se o peditório.

À tarde, sai para a rua a procissão com o padre, santos e os anjos;  fogaças e muita gente com devoção. Pedem a santo Expedito protecção para os militares na guerra do Ultramar. Pedem a outros santos, saúde e fartura nas colheitas.

Há cânticos, rezas e foguetes no ar. Há quem tenha alguma fé e esperança. Nos emigrantes e militares há tristeza e frustração.

Mas, ao fim da tarde, no recinto da festa, junto à capela em construção, homens e mulheres, rapazes e raparigas transbordam de alegria. Há comida e bebida, rifas e jogos; música e bailação. Estoiram foguetes no ar, que enorme alegria.

Até madrugada a grande festa vai continuar.

Rancho folclórico, conjunto musical, baile e fogo preso tudo vai participar.

Depois é o final!

Cala-se a música, arruma-se a tralha e apagam-se as luzes.

Há nuvens e vento diferente do habitual. O vento é quente. Há quem diga – parece ser vento soão, e quando assim é, não traz coisa boa.

As nuvens engrossam e ouve-se trovejar.

Não há tempo a perder, há que mudar de roupa, e seguir para as hortas, onde temos muito feno por apanhar. As nuvens são escuras e o vento forte faz-se ouvir.

Em poucos minutos, tudo se transforma. Chove torrencialmente. Há quem reze a Santa Barbara, para que leve a trovoada, para bem longe. Chove, chove sem parar.

Enchem-se de água as ruas e os ribeiros transbordam. As ribeiras saem do seu leito e os moinhos ficam inundados. Os nateiros ficam submersos. Chove, chove sem parar.

Ao fim da tarde o tempo amainou.

A festa da aldeia terminou.

A.Gueifão