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Black & White : Entrada / Crónicas / Versos do "Poeta Cavador" Manuel Alves
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Versos do "Poeta Cavador" Manuel Alves

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Recordar versos do “Poeta Cavador”, Manuel Alves

 

À pouco tempo, num programa/concurso da RTP 1, o apresentador faz uma perguntava ao concorrente; - em que concelho nasceu o "Poeta Cavador", Manuel Alves. O concorrente, não estava muito seguro (penso eu), mas respondeu certo; - concelho de Anadia.

O apresentador descreveu sumariamente o "Poeta Cavador".

Nasceu em 15 de Outubro de 1843 e morreu em 24 de Julho de 1901

Manuel Alves era um homem pobre e analfabeto. Os seus versos são de uma riqueza extraordinária.

Em 1957, a sua freguesia Moita, concelho de Anadia, prestou-lhe justa homenagem erigindo-lhe um monumento. Busto em bronze.

Esta pergunta e resposta, levou-me imediatamente aos anos de 1977.

Em 23 de Maio de 1977, o meu grande amigo Martinho Rita Bexiga (um dos mais conhecidos poetas populares), ofereceu-me como prenda do meu aniversário um livro, “Poetas Populares” com cinco grandes nomes; cauteleiro, António Aleixo; cavador, Manuel Alves; mecânico, Rita Bexiga; pescador, Silva Peixe e serralheiro, J. Maria da Silva.

A dedicatória está assim:

“A quadra tem pouco espaço

Mas tenho em convicção,

Nesta quintilha que faço

Dar ao amigo Gueifão

Nestes versos um abraço!...

Lisboa 23-5-977

ass, Martinho Rita Bexiga

Quando falava-mos de poemas e poetas, o meu amigo Martinho Rita Bexiga, não escondia a sua grande admiração por António Aleixo. Basta dizer que, foram amigos de infância e até ao fim da vida.

Mas também me lembro, de ter falado do “Poeta Cavador” Manuel Alves e destes versos que hoje aqui deixo. Versos do passado? Será que se ajustam ao presente?!

 

“O Meu Grito”

 

Nobre e altivo Portugal,

Foste outrora o mais valente

Hoje tão pobre e doente,

Império feito hospital

Saquearam-te o metal,

Altos senhores de cartola

Partiu a doirada mola

À chave do teu dinheiro,

À porta do estrangeiro

Bates, pedindo esmola.

 

Tu foste crente e sadio

Nessas épocas passadas,

Hoje em manhãs de geadas,

Trémulo de fome e frio...

Esse governo vadio,

Essa vil raça mesquinha,

Vendeu-te à raça vizinha

Como inútil para a vida!

Tens a existência perdida,

Tu, já das nações rainha.

 

Foi um governo devasso

Que te deu a pobre enxerga;

Pôs-te um cestinho de verga

Dependurado no braço.

Pedes de pão um pedaço,

O teu leito é pobre palha;

Roubaram-te essa medalha

Da honra, da valentia...

Era um rei que então havia,

Chefe de toda a canalha.

 

Eu sei que o réu não és tu;

Mas os teus, no esquecimento,

Deixaram que o parlamento

Te expusesse quase nu,

Com calças de pano cru,

Sapatos velhos, já rotos,

Sem esperanças de teres outros

Sem honra, sem disciplina...

Ai do que escuta a doutrina

Dessa corja de marotos!

 

Foram eles que te obrigaram

A assinar uma escritura...

Esses da magistratura

Todos juntos te cercaram,

Todos a uma só voz bradaram:

“Se não quiseres assinar,

Os teu filhos de além-mar

Vão para venda ser punidos!”

Para não veres filhos vendidos,

Tiveste que te curvar!

 

Ó filhos de Portugal,

Gritai todos a uma voz:

“Abaixo o governo atroz!

Abaixo a hoste real!”

Limpemos a lodaçal,

O foco da epidemia,

Que de dia para dia

Nos vai cavando o abismo;

Guerra crua ao despotismo!

Guerra crua à monarquia!

 

Ao pobre falta-lhe o pão

Com que se alimentar,

E há-de por força pagar

A sua contribuição!

Para pior condição

Vem o senhor da fazenda

Pedir-lhe do amanho a renda,

O suor dum ano inteiro!...

O pobre não tem dinheiro,

Tem que expor tudo à venda.

 

Depois o imposto do selo

Cada vez mais aumentado...

Um governo debochado

Leva-nos coiro e cabelo...

O pobre não tem apelo,

Requer não é obtido;

De hidrófobo cão mordido,

São inúteis suas queixas;

Vem dos mandões as fateixas,

Lá fica o pobre despido.

 

Não temos tropa de linha,

Não temos cavalaria,

Não temos artilharia,

Nem sequer temos marinha!

A pátria, pobre e mesquinha,

Sem, crédito, sem dinheiro,

Dum governo traiçoeiro

De caloteira insultada,

Assim anda apregoada

Nos jornais do Estrangeiro!

 

Pagam-se quinze por cento,

Direitos de transmissão;

Tudo vai cair a mão

Duns homens sem sentimento.

É este o procedimento

Da vossa alta energia!

Nas bambochatas, na orgia,

Assim esgotais os cofres...

Vê Portugal, quanto sofres...

Com a santa monarquia!

 

Versos de Manuel Alves - 1843/1901

“Poeta Cavador”