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A velhice - Desabafos em Lar

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Vários desabafos de utentes em Lar

Nasci aqui por perto e fui batizado na nossa Igreja Matriz. Fiz a quarta classe na Escola Velha, a escola da Vila. Tenho em memória o calor e o frio, a chuva e o vento. Não esqueço não! Agora tudo está diferente. Em criança, corri pelos campos e colhi flores para a minha mãe; as papoilas vermelhas, os lírios azuis e os jacintos amarelos - ó minha mãe! Apanhei pinhas e estevas para o lume, colhi bolotas e azeitonas para comer. Diverti-me nas festas e romarias; os bailes, as fogaças, as rifas e os foguetes. Este tempo não volta mais, não volta não! Tantas raparigas bonitas, as moças, eram de encantar… e foi na festa da Vila, onde encontrei a rapariga mais bonita da minha vida; depois, a felicidade sempre me acompanhou, até que um dia, até que um dia... e continuou, e continuaram os vários desabafos - fui operário e agricultor. Fui estudante e militar. Fui engenheiro. Fui doutor e fui professor. As minhas mãos semearam e colheram, as minhas mãos construíram. As minhas falas ensinaram e, os meus passos levaram o saber. Fui portador de tanta coisa boa e tive tanta sabedoria. Agora, aqui estou de cabeça baixa; estou pensando e recordando o que fui e o que tive, o que sou e o que tenho. Fui criança feliz. Fui operário e agricultor. Fui estudante, fui engenheiro, fui doutor. Fui militar e também professor. Hoje, quando levanto a cabeça, dou em mim – sou mesmo eu, sou eu sim! Estou sentado e com muita dificuldade para me movimentar. Quando falo, será que, me querem ouvir ou estarei a incomodar? Em tempos, fui e fiz tanta coisa boa… Adorava falar, ensinar, trabalhar e participar. Finalmente resta-me esta cadeira para me sentar, o cobertor para me tapar e a modesta cama onde me vão deitar. Ó minha mãe, tanta falta me fazes”.

O resto meu amigo dá para pensar.