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Roubaram o Burro

É real e aconteceu em mil novecentos e cinquenta e cinco numa aldeia da freguesia de Belver, concelho de Gavião.
Eles chegaram ao fim da tarde, e como sempre, instalaram-se no descampado do Cabeço da Eira. Três carroças, dois burros e uma mula “carregam” meia dúzia de crianças, alguns tachos e panelas... e outras coisas de menos valor. Logo que instalados; acontece normalmente antes do pôr do Sol, as mulheres e as crianças, descem ao povoado e pedem alguns alimentos para a ceia. Pedem pão, queijo, azeitonas e toucinho “senhora pelas alminhas que têm no Céu, dê-me uma esmolinha para alimentar os meus filhos que estão cheios de fome” - “senhora deixe que lhe leia a sina há quem a ande a apoquentar” - “dê-me um pouco de palha para os meus burrinhos”
Sempre assim foi e assim será!
No entanto, os chegados hoje, não desceram ao povoado e não se fazem ouvir.
Provavelmente não irão permanecer, as vinte e quatro horas, autorizadas por “LEI”, ou então, fome não devem ter.
Quando a tradição é quebrada, o povo desconfia e com muita razão.
Na aldeia, em noites quentes de Agosto, ouvem-se alternadamente os cães ganir, as raposas a uivar e as corujas a piar.
Esta noite, sem justificação aparente, o silêncio é enorme. Não é normal isto acontecer. Estranho!... Muito estranho!
A rotina na aldeia é sempre a mesma; todos se levantam cedo, muito antes do Sol nascer.
Mal se levantam, sentam-se à mesa da cozinha e comem uma fatia de pão com o conduto que houver, bebem café de cevada ou um copo de vinho; não perdem tempo, seguem para os palheiros, e dão comida aos animais; depois encaminham-se para as hortas e nateiros onde semeiam, regam e colhem.
Bem cedo, muito antes do Sol despertar, o Ti Florindo, como sempre faz, dá comida e água aos seus animais, e quando tem mais tempo, até fala com eles. Mas, esta manhã, mal sai de casa, nota que, no caminho há marcas não habituais.
O coração bate-lhe mais forte; tem um mau pressentimento. Corre apressadamente para o palheiro dos seus animais, e logo se apercebe que a porta está arrombada.
- O que terá acontecido?
Olha, torna a olhar e chama.
- Russo. Russo.
O burro não está no palheiro. Olha e chama.
- Russo. Russo. Ah, ladrões... Ah, ladrões que me roubaram!
Salta para o meio do caminho, enche os pulmões de ar e grita:
- Fui roubado. Fui roubado...
- Roubaram-me o burro. Roubaram-me o burro...
Depressa o povo acode; homens e mulheres em pouco tempo, estão no local.
- Foram eles! - gritam em coro.
- Eles quem ? - pergunta o Zacarias.
- Eles
- Vamos já ao acampamento - ouve-se numa só voz.
- Vamos. Vamos depressa.
Chegados ao descampado do Cabeço da Eira, eles já não estão lá.
- Foram eles, não há dúvidas desabafa - o Cravada.
- Temos de avisar a Guarda quanto antes, eles não devem ir longe.
- A melhor maneira de o fazer é chamar Cabo Chefe da aldeia - esclarece o Canas.?
- O Cabo Chefe está a chegar, olha... já está ali - diz o Louro.
Imediatamente é aparelhada uma besta e o Ti António, Cabo Chefe local, vai à vila dar a notícia ao Regedor. Para comunicar o roubo, o Regedor dá três maniveladas no telefone público e fica à escuta.
- Para que número quer falar? - pergunta a telefonista.
- Daqui fala o Regedor, ligue-me à Guarda, é muito urgente.
- Sim senhor Regedor, eu ligo já.
O senhor Regedor, dedicado servidor das causas públicas, comunica o roubo e, é informado que uma patrulha irá imediatamente para o local.
Um pouco antes do meio dia, a patrulha da Guarda, montada a cavalo, chega à aldeia para tomar conta da ocorrência.
Desmontam, e prendem os dois animais ao bardo da tapada anexa ao palheiro.
E logo, um dos Guardas pergunta: - quem foi o roubado?
- Eu senhor Guarda. O burro era meu.
- Qual o seu nome?
- Russo senhor Guarda.
- Russo! Eu quero é saber o seu nome, e não o nome do burro.
- Zé Florindo é o meu nome.
E o inquérito continua.
- A que horas deu pela falta do burro?
- Senhor Guarda, dei pela falta do meu Ruço muito cedo, muito antes do Sol nascer.
- Viu alguém por aqui?
- Não. Não vi senhor Guarda.
- Desconfia de alguém?
- Desconfio deles, os que chegaram ontem à noite.
- Foram eles - ouve-se em coro.
- Os que ontem acamparam no Cabeço da Eira.
- E ainda lá estão?
- Não. Já não estão.
- Sabe para que lado foram?
- Não. Não sei senhor Guarda.
- Sabe quantos chegaram ao descampado do Cabeço da Eira?
- Certo, certo não sei, talvez uns oito, não contando com os garotos.
- Traziam burros, machos, mulas ou cavalos?
- Eu vi dois burros e uma mula velha.
- São conhecidos por aqui?
- Não. Estes são de longe. Não são conhecidos por cá.
- Roubaram mais alguma coisa?
- Sim senhor Guarda; roubaram-me o burro, uma ovelha e uma albarda.
- Mais ou menos quanto valerá tudo?
- Eu sei lá! Talvez umas doze ou treze notas. O burro vale dez notas à vontade, a ovelha, a albarda e o arreio, valem duas ou três notas.
- Deixe lá as notas e diga quantos escudos são.
- Sim senhor Guarda, perto de um conto e meio.
- Um conto e meio? Perto de mil e quinhentos escudos! Olhe Ti Florindo, vossemecê sabe que são mais de sessenta jornas de trabalho?
- Sim senhor Guarda, confirmo serem mais de sessenta jornas de trabalho, a jornal atua é de vinte escudos sol a sol.
A patrulha da guarda termina as perguntas e esclarece.
- Não garantimos encontrar o burro, mas tudo faremos para isso. Se houver boas notícias, voltamos cá para informar. Se eles forem vistos devem informar imediatamente a Guarda.
- Sim senhor Guarda. Sim senhor Guarda.
E assim o Ti Florindo ficou sem o seus animais.
Nos finais de Dezembro, à entrada da noite, chegam ao descampado do Cabeço da Eira, um grupo de ciganos. Duas carroças e três burros, carregam meia dúzia de crianças, alguns tachos e panelas... e outras coisas de menos valor. Logo que acomodados, as mulheres e as crianças, descem ao povoado e pedem alguns alimentos para a ceia. Pedem pão, queijo, azeitonas e toucinho “senhora pelas alminhas que têm no Céu, dê-me uma esmolinha para alimentar os meus filhos que estão cheios de fome” -“senhora deixe que lhe leia a sina há quem a ande a apoquentar” “senhor dê-me um pouco de palha para os meus burrinhos”
Sempre assim foi e assim será!
São ciganos, bem conhecidos pelo povo e cumprem a tradição.
São duas famílias; os Jerónimos e os Malaquias. O povo colabora oferecendo alguns alimentos, há também que estenda a mão para ouvir a sina. E pela noite dentro, os cães ladram, as raposas uivam e as corujas piam. Sempre assim foi e assim será!
O cigano Jerónimo, montado no seu belo burro, desce ao povoado e vai pedindo alguma palha para os seus animais. Mas, que grande surpresa, o burro parou junto ao palheiro do Ti Florindo.
- Anda burro. Anda burro - ordena repetidamente o cigano Jerónimo.
- O burro parece estar cismado, será que há por perto burra saída? - comenta o cigano.
O Jerónimo dá-lhe duas vergastadas e mesmo assim o burro não anda.
- Anda burro. Anda burro.
O Ti Florindo, ao ouvir o cigano a gritar vem ver o que se passa.
O burro que não anda. O burro que estancou à porta do palheiro é o seu Russo.
Desloca-se para o meio do caminho, enche os pulmões de ar e grita com muita alegria - este é o meu Ruço. O burro é meu. O meu burro está aqui.
O povo comparece e certifica. O burro não anda por estar na sua casa e ter por perto o seu verdadeiro dono, o Ti Florindo.
O Jerónimo está atormentado e não tem justificação.
- Eu troquei o burro na feira do Crato. Juro, não sei o que se passa.
- O burro fica ou chamamos a Guarda - diz o povo em alta voz.
O Jerónimo e o Malaquias, sempre foram ciganos respeitados e sérios e como tal, apresenta a solução.
- Sendo o burro seu, outro dono não pode ter. Abra-lhe a porta e deixe-o entrar.
O burro entrou e ficou.
A. Gueifão

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